sexta-feira, 21 de maio de 2010

Literatura - Autor Simbolista - Cruz e Souza



Cruz e Souza (1861-1898):




Cruz e Souza é considerado o maior poeta simbolista do Brasil, suas obras Missal e Broquéis, publicadas em 1893, marcam o início do simbolismo no Brasil.
Nascido em Santa Catarina, mais precisamente em Florianópolis, no ano de 1861, Cruz e Souza, vindo de uma família de escravos, foi amparado por uma família de aristocratas, assim, ajudado nos estudos, com a morte de seu protetor o poeta abandona os estudos e vai trabalhar na imprensa catarinense, escrevendo crônicas abolicionistas e participando ativamente a favor da causa contra a escravatura em nosso país. Cruz e Souza, vitima de racismo, vai para o Rio de Janeiro, após sofrer uma desilusão amorosa apaixonando-se por uma artista branca casa-se com uma mulher negra chamada Gavita, morre aos 36 anos, devido à tuberculose.
Cruz e Souza escreveu duas obras intituladas Missal e broqueis, é reconhecido hoje como um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, mas isso veio a acontecer somente após sua morte e devido à colocação entre os maiores poetas simbolistas do mundo pelo francês Roger Bastide,sociólogo estudioso do simbolismo.
Sua obra poética apresenta muita diversidade e riqueza, de um lado encontram-se aspectos do simbolismo, herdados do romantismo: o culto da noite, pessimismo, certo satanismo, a morte.
Observe essas características no poema intitulado inexorável.


Inexorável


Ó meu Amor,que já morreste,

Ó meu Amor,que morta estás!

Lá nessa cova a que desceste,

Ó meu Amor,que já morreste,

Ah! nunca mais florescerás?!

Ao teu esquálido esqueleto,

Que tinha outrora de uma flor

A graça e o encanto do amuleto;

Ao teu esquálido esqueleto

Não voltará novo esplendor?!

E ah!o teu crânio sem cabelos

Sinistro,seco,estéril,nu...(Belas madeixas dos teus zelos!)

E ah! o teu crânio sem cabelos

Há de ficar como estás tu?!

O teu nariz de asa redonda,

De linhas límpidas,sutis

Oh!há de ser na lama hedionda

O teu nariz de asa redonda

Comido pelos vermes vis?!

Dos teus dois olhos-dois encantos

-De tudo,enfim,maravilhar,

Sacrário augsto dos teus prantos,

Os teus dois olhos-dois encantos

Em dois buracos vão ficar?!

A tua boca perfumosa,

O céu do néctar sensual,

Tão casta,fresca e luminosa,

A tua boca perfumosa

Vai ter o cancro sepulcral?!

As tuas mãos de nívea seda,

De veias cândidas e azuis

Vão se estinguir na noite treda

As tuas mãos de nívea seda,

Lá nesses lúgubres pauis?!

As tuas tentadoras pomas

Cheias de um magníficoelixir,

De quentes,cálidos aromas,

As tuas tentadoras pomas

Ah!nunca mais hão de florir?!

A essência virgem da beleza,

O gesto,o andar,o sol da voz

Que iluminava de pureza,

A essência virgem da beleza,

Tudo acabou no horror atroz?!

Na funda treva dessa cova,

Na inexorável podridão

Já te apagaste,Estrela nova,

Na funda treva dessa cova,

Na negra transfiguração!


Por outro lado, existe uma preocupação parnasianista em relação a forma e estrutura dos versos, uma linguagem filosófica que o aproxima dos poemas pertencentes ao realismo português. Cruz e Souza apresenta uma profundidade marcante quanto à utilização da Língua Portuguesa em seus versos, sempre seguindo a risca a gramática e o uso da língua em sua norma culta.
São características de sua poesia também a investigação filosófica e do sobrenatural, assim como o pessimismo vindo do filósofo alemão Schopenhauer, que fala sobre o drama da existência humana, a fuga da realidade e o desejo de fundir-se ao cosmos. Essas características seguem devido ao que o autor sofria pelo fato de ser negro e a luta contra as ideias capitalistas. Podemos sentir através de seus versos o drama de ser negro vivido pela opressão sentida no autor. Observe os poema a seguir:

Cárcere das Almas


Ah! Toda alma num cárcere está presa,

Soluçando nas trevas, entre as grades,

Do calabouço olhando as imensidades,

Mares, estrelas, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza

Quando a alma entre grilhões as liberdades

Sonha e, sonhando, as imortalidades

Rasga no etéreo espaço da pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas

Nas prisões colossais e abandonadas,

Da dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,

Que chaveiro do Céu possui as chaves

Para abrir-vos as portas do mistério ?!

Características da poesia de Cruz e Souza:


Podemos colocar como principais características do autor em relação aos temas: a morte, o lado espiritual, o conflito entre a matéria e o espírito, a integração com o cosmos, angústia, sublimação sexual, obsessão pela cor branca e a escravidão;
Quanto à forma podemos destacar: a sonoridade das palavras, a utilização de letras maiúsculas com fins de dar ênfase a certas palavras e o predomínio de substantivos em seus versos.
Observe no poema que segue o questionamento do fundamento da existência humana pelo poeta:

Cavador do Infinito


Com a lâmpada do Sonho desce aflito

E sobe aos mundos mais imponderáveis,

Vai abafando as queixas implacáveis,

Da alma o profundo e soluçado grito.

Ânsias, Desejos, tudo a fogo, escrito

Sente, em redor, nos astros inefáveis.

Cava nas fundas eras insondáveis

O cavador do trágico Infinito.

E quanto mais pelo Infinito cava mais o Infinito se transforma em lava

E o cavador se perde nas distâncias...

Alto levanta a lâmpada do Sonho.

E como seu vulto pálido e tristonho

Cava os abismos das eternas ânsias!


Neste poema o autor questiona a razão e o fundamento da existência humana. O eu lírico do poema vive o drama existencial, descrito como “cavar o infinito”. Os verbos desce e sobre descrevem a ideia de cavar. Acalmar os ânimos de sua aflição, essa é a intenção de cavar, sonhos se referem a infinito, fantasias, desejos.
O poema traz a ideia de que o autor tenta a retirada de suas dúvidas, medos e anseios á procura de uma libertação, uma calma espiritual.

Nenhum comentário: